sábado, 21 de julho de 2018

festas juninas

comidas saborosíssimas, alguma música boa e um repertório de imagens contraditórias sobre um mundo rural/caipira/sertanejo que nunca existiu ou que não existe mais, pois os intérpretes, com raras exceções, não o experimentaram. 

tempos de boi bumbá no maranhão e na amazônia. pai francisco continuará trazendo a língua do boi do senhor para sua catirina. um ato de amor e rebeldia afro-brasileiro. 

mais uma justaposição: 24 de junho - dia de são joão - o joão batista radical que se alimentava de mel e frutos silvestres / fogueira de xangô. rei [alafin] de oyó. 

haja antropologia, geografia e outras áreas do conhecimento para entender esse país.

eu, as tatuagens e o irmão

é sábado à tarde e o "irmão" passa na rua vendendo algo de uso doméstico para "ajudar uma instituição". saí sem camisa e fui até à varanda para comprar. o camarada pergunta: e essas tatuagens irmão? digo porque fiz algumas. pergunto sobre as dele. diz que tem uma que ele vai cobrir com "um Jesus". fico pensando se outro Jesus, de outros irmãos e irmãs, não o aceita.

no outro sábado, ele vem. saio de camiseta para a varanda. compro o que vende porque é muito útil. ele pergunta: e as tatuagens, irmão? sei que as tattoos são linguagens e gosto quando elas falam ou falamos dela com identificação.

ele sempre pergunta. tenho vontade de dizer e perguntar o que penso a mais. é alguém que em face da primeira e segunda pele sofreu e sofre risco. é um irmão que eu considero irmão. a brevidade do tempo e o mosaico dos espaços me tiram a ilusão.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

parte-partícula

foi e é partida
era apenas uma parte
e mal tocou o todo
tentou e tenta partir
alguns todos fortes
vindos de baixo
quando esta parte
não estava por cima

foi e era partido por dentro
talvez fosse um todo
com partes vindas
de muitas partes
de todos fortes

uma parte imaginou
tomou partido e fez
esta outra parte fez
fez o que ninguém imaginava

era o que faltava
a parte que era de cima
e foi mais acima
esqueceu das outras partes
de onde vinha uma parte sua
de que e de quem era parte

ninguém imaginava
a parte-quase todo
ainda era frágil
foi em parte atingida
se estilhaçou
é só partícula

terça-feira, 17 de julho de 2018

contra-dança e contra

[para Paulo Colina]

está teso, não é arco
naufraga, não é barco

vide tu e eu nessa manhã aberta
provinda de uma noite fechada
de uma dança vedada à gente liberta
de vida incerta que dança a dois a um e a mais
aos bandos diante das bandas ou djs
nas pistas, salões e quadras
no depois, em transas de transeuntes à sós
aos sons ritmais de teclas, cordas e couros
aos vivos, no rádio ou no telefone móvel
à fala mínima dos sentidos acesos
ao ruído da turba de cá, dali e delá

como não queriam os uniformes e as fardas
como queiram as palmas sem cortes e as costas sem vincos doídos

quão sereno parece o arco teso e certo
que precede à insurgência
da gente amotinada no barco
espremida e fugida de porões e quartos fechados por fora
de máquinas de moer a safra e fazer a venda para fora
das tramas para libertar os papéis e as irmandades
de voltar após as quedas e os golpes

uma dança meio reza com motivo de erva
fechadura de alma e carranca na proa e na porta
guardadas as flechas, não as maquinações
fresta luminosa de corpo na cama e na esteira
lavagem floral de dentro e por dentro
incorporada e vertida nas criaturas-criativas
paradas e prontas para outro tiro e outro giro

outro giro
outro giro

sábado, 7 de julho de 2018

fissuras & frestas

percursos
percalços

paredes
portas

portos
mercados

pedras
águas

fissuras
frestas

ferros
feridas

ramagens
raízes

martírio
motim

sortilégio
sertão

pedras
papéis

boa morte
bem viver

sexta-feira, 22 de junho de 2018

re-visão

nítida íris escura

tão arqueado não
re-visão retro-visão
cá arco-íris lá
não menino vão
veja através vá