sexta-feira, 22 de junho de 2018

re-visão

nítida íris escura

tão arqueado não
re-visão retro-visão
cá arco-íris lá
não menino vão
veja através vá

terça-feira, 19 de junho de 2018

re-canto

no gueto
o gesto
o gosto

o gueto negro
e gente gay

fora o desgosto
o gasto
a fazenda desfeita

no negro rosto
o gesto gay

negra gata
e outra gata
ilha lesbos-afro

é o gueto
eu sei, sabe

negro gesto
no rosto gay

há um tempo
é um gueto
um canto, sabe

tempo negro
hora gay
gata, leoa, pantera

o gesto é curto
longo é o tempo
da canção do gueto

pista, platô e passo

neste canto, re-canto
gosto, escuto
curto, danço

re-alço
re-salto
re-faço

no canto-gueto
gay e preto
um objeto
livro-disco-filme
subjetivado

sob a luz
sobe a alma
sabe? sei

quarta-feira, 13 de junho de 2018

gaiatice - 14

não ponha o Antônio santo de cabeça para baixo num copo com água. isso não se faz com absolutamente ninguém.

terça-feira, 12 de junho de 2018

avoado


por fora do ovo
debaixo da asa
esquecido da casca

um bico e um grito

a queda
o susto
a volta

os sós e os sóis

tinindo
atinando
lançando

uns talvez e uns nunca mais

por acolá
por aqui
esquecido

voando
avoado
atarantado

contradições e paradoxos do "popular" [trecho]

o que é o popular no Brasil?

o popular "brasileiro" é quase totalmente negro? é também indígena? por acaso, tem algo de português ou ibérico? por que não é também "árabe", rom, calon, sinti ["cigano"] e nissei, dentre outros grupos formadores da nação e do território?

Alex Ratts - nós fora da escola e a escola fora de nós [trecho de ensaio inédito]

sexta-feira, 8 de junho de 2018

quilombo, aldeia, gueto, favela, comunidade e quebrada: sobrevivências e potências dos territórios negros

são paulo vista de cima é um mar de rios, avenidas, prédios, lojas, casas e morros sem mar

ao rés do chão é um mar de gente, céu cinza e arranhado, picho ousado, grafite colorido e falante, re-ocupações coloniais-modernas, som de pandeiro, sanfona, bumba boi, drum n' bass e beat box

são paulo não é santa, é de nenhum santo, contendo mil pontos sacralizados
são paulo é guarani, negra e africana
é afro-nordestina das bordas ao marco zero
é latino-americana dos cortiços às praças

é um ponto no meio do mundo ou um mundo de migrantes
uma cartografia de vielas, ladeiras, campos de futebol e de extermínio

[trecho de "afro-sampa" - Alex Ratts]

quinta-feira, 7 de junho de 2018

com todo cuidado, camarada

com todo cuidado, camarada

provavelmente você sabe como a sociedade ou parte dela vê os adolescentes e jovens negros desde a escravidão. provavelmente você sabe como a universidade, as empresas, o executivo, o parlamento, a justiça e a polícia tratam as pessoas negras desde barrar nossa entrada até a eliminação do que somos e pensamos, até a eliminação do corpo negro.
provavelmente você sabe, como eu sei, qual a cor dos corpos que predomina nas casa de detenção ou presídios.

provavelmente você e eu mal sabemos o que aconteceu na trajetória desses garotos para que as oportunidades fossem sendo eliminadas até serrem empurradas para esse local e para o fim que tiveram. sei apenas de um deles, um garoto sagaz, prestativo, alegre que podia ter tido um outro caminho e nós o perdemos. o estado o matou.
provavelmente, em algum momento, você ou alguém que você conhece passou por algo parecido. provavelmente você sabe, nós sabemos, que esse nosso corpo quase não tem nenhuma proteção, nem a suposta armadura de uma casa, de uma família, de um espaço religioso, de uma escola e de um diploma. você sabe: só temos a nós mesmos.
nós sobra apenas termos que tentar viver assim. com todo cuidado.