segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

ori-entações

uma cabeça, um corpo
inúmeras seções
um centro
inumeráveis direções


[ori = cabeça em Yorubá, Nigéria, África]

terça-feira, 8 de novembro de 2016

quanto ao tempo

quanto ao futuro
a boca falava em troco e no oco

quanto a apenas um dia
a boca dizia e desdizia o que preza, o que reza

quanto ao horizonte, havia quase ontem por dentro
o olho quis saber o que escrevia e via


viu o resto da noite e a réstia do dia

sábado, 6 de agosto de 2016

A luz de Luiza [Bairros]

No dia 12 de julho de 2016, dia do nascimento de Beatriz Nascimento, eu estava no Ilê Axé para começar meu processo de iniciação no candomblé. Algumas horas antes de ser recolhido, recebi a notícia do falecimento de Luiza. Primeiramente não acreditei. Estava me desligando do celular e não tinha quase ninguém com quem compartilhar o agudo dessa hora. Lembro-me de Osmundo Pinho dizer que naquele fato estava o pleno significado de “perda irreparável”.
Não éramos amigxs de ombro a ombro. Estivemos juntxs poucas vezes, mas foram seguras e delicadas. Quando ela estava no PNUD, um dia, pediu meus contatos. Vi que a pessoa-referência estava atenta ao que eu fazia/estudava/escrevia. A sensação foi a de que um dos faróis que me iluminava, jogava sua luz sobre mim. Tinha sido assim com Kabengele Munanga e com Sueli Carneiro.
Em 2004, por indicação dela, estava numa mesa redonda o seminário em rememoração aos 10 anos de morte de Lélia Gonzalez.  Depois foi o livro sobre Beatriz Nascimento e mais à frente a biografia de Lélia, com Flávia Rios, para a qual ela não quis, compreensivelmente, dar entrevista. Além do artigo “Lembrando Lélia Gonzalez” no qual ela evoca esta persona incontornável, imagino que suas trajetórias eram bastante superpostas, ainda que diferenciadas, e falar exigiria esforços adicionais.
Algumas conversas frente a frente me marcaram nesse percurso de busca e interlocução com a obra de intelectuais/artistas/ativistas negrxs, nossxs semelhantes. Alguma ideia, a palavra, conterá o que retive de sua perspectiva.
Há muito que se lembrar dela, desde a construção do Movimento Negro até a gestão pública. A memória, minha e de muitxs, é do discurso laminar e denso. Que apareçam mais textos seus e mais registros de sua passagem luminosa sobre o planeta. Que ela e nós tenhamos longevidade e bem viver em vários planos.
Axé e saudade.

terça-feira, 7 de junho de 2016

feira e laboratório

meus dentes
meu torso
meus braços
minhas pernas
meu preço
o olho do Mercador

meu adobe
meu ferro
meu ouro
meu bronze
minha terra
o olho do Colonizador

minha cabeça
meu cérebro
meus ossos
meu corpo
meus movimentos
o olho do Cientista

meus dentes
meus lábios
minhas nádegas
meu sexo
minha recusa
o olho do Senhor

[para Sara Baartman, conhecida como a "Vênus Negra"]




quinta-feira, 12 de maio de 2016

lini/ker

lini/quer
lini/quis

lini/querem
lini/quero

lini/quem
lini/queer

lini/querer
lini/ker

mal me lini/ker
quem?
bem me lini/ker
eu

e tudo o que é seu
lini/ker

[após a primeira passagem do furacão ‪#‎Liniker em Goiânia]

quarta-feira, 11 de maio de 2016

escalas e escolas da reação

 o dia: o dia em que provavelmente se consolidará o golpe branco - leia-se masculino e de elite - na esfera política, contra um governo repleto de erros, mas não exatamente por eles (os erros graves de negar problemas das camadas de baixo e de se aliar ou imitar as camadas de cima dizendo que a proposta era outra). um golpe que se estenderá em várias escalas, do corpo à cidade, aos estados e ao país.

os próximos dias: os vislumbres de visibilidade e possíveis avanços das mobilizações da gente subalternizada podem dar lugar a ameaças de várias ordens. entre a desobediência civil, as fugas (políticas) e os enfrentamentos, uma certeza: temos 3 gerações e vários platôs articulados para elaborar a reação em várias escalas.

o tempo: o tempo em que nossa gente subalternizada imaginou dar passos a frente e alguns foram dados (e isso vem antes e está além de qualquer governo). são 3 gerações de estereótipos e ataques letais. (são mais). são 3 gerações formadas em escolas - formais ou não, quadriculadas ou não - do corpo às aldeias, aos quilombos, aos terreiros, às pistas e ruas e margens das cidades e do país.

os próximos tempos: uma escola que não se resume a docentes, discentes, livros, cadeiras e salas. (na escala local há muitas escolas criativas sem livros, mas não sem poemas). a escala da escola do saber-fazer/poder insurgente que nos manteve – ainda que “apenas” mental, espiritual ou artisticamente – em nossos territórios. 

domingo, 17 de abril de 2016

o dia seguinte

falas
para telas
para cliques


a praça incompleta
a teoria fora do tempo


falas
dedos em riste
para claques
para cliques


falas
editadas
pautadas


ruídos
esboços
de atos espúrios
sem agravos


de um lado da praça
no asfalto
em frente ao edifício
o prazo de validade
dos recados
dos gritos


plenário incompleto
vozes selecionadas


o fato
o muro


perto ou longe da praça
na escola ocupada
fora do tempo previsto


longe do plenário
o massacre
a verdade sem voz
e incompleta


falas
do corpo encapsulado
dos pequenos grupos


falas
contas de erros
contas de quem falta


quem escapou
quem viu
quem leu
conversou
se reuniu


pilhas de
cadernos
livros
documentários


no tempo em que
cartazes
panfletos
pichações
letras de canções
eram armas

debaixo das árvores
no terreiro
na cidade incompleta
no gueto


histórias
metáforas


para o corpo
marcado
incompleto
para o dia seguinte


a procura das falas
fora das salas
en-quadradas


a edição
de um filme
de um livro
de uma história em quadros


com a voz de quem
não esquece
da queda
da apartação
do massacre


e no título
o dia seguinte