sexta-feira, 18 de maio de 2018

a dimensão corpóreo-espacial e o gênero - 2

neste sábado de manhã, havia marcado pessoalmente um horário para fazer as unhas perto de casa. quando volto ao salão, ela me fala assim: "a dona disse que o salão não atende cliente homem". fiquei um pouco absorto, ela notou e falou novamente: "o senhor entendeu o que eu falei? o salão não atende cliente homem". fui embora meio sem graça, mas compreendi.
entendo perfeitamente os locais diferenciados por gênero, sexualidade, raça, etnia e classe. são espaços de identificação, reconhecimento, cuidado, proteção ou mesmo celebração. sei/sabemos que alguns deles não são exclusivos, mas têm um foco em determinado público. o estudo da educadora e antropóloga Nilma Lino Gomes com os "salões étnicos" de Belo Horizonte traz as potencialidades e algumas contradições desses pontos de cuidado, sobretudo com cabelo, mas também de elaboração da identidade.
no meu entendimento, as mãos traduzem a feminilidade ou masculinidade. muitas cidades têm "salões afro". penso que ainda tem um aqui. só não sei se conta com manicure. a barba traduz o tornar-se homem. a idade também é colocada em questão nesse cenário, como na restrição a se usar os fios grisalhos "naturais".
os salões masculinos não são abertos a pessoas com identidade feminina. do jeito que são organizados e com o público que os compõem, não sei se tem que ser. às vezes têm manicure, como é um desses que tento frequentar. o preço que clientes críticos e sensíveis têm que pagar, a depender de onde está situado, é ouvir conversas machistas e/ou patriarcais. podem acontecer situações de racismo, sexismo, homofobia ou outras discriminações morais em face do visual como já aconteceu comigo. os papos sobre futebol, política e violência também podem ser insuportáveis. isso às vezes ocorre num bairro "mediano" onde cabeleireiros e barbeiros são de origem popular. não sei como são os ambientes de gente rica. não me interessa.
nestes dias fui a uma barbearia no centro da cidade, propriedade de duas mulheres, que cortam cabelo e fazem barba. elas atendem pessoas de várias identificações de gênero. o estabelecimento tem o sugestivo nome de Mulher Barbada. não sei se os preços permitem que pessoas negras das classes populares acessem o local. devo voltar lá.
um artigo de bell hooks [alisando nosso cabelo] me faz lembrar que as mulheres da família se reuniam para cuidar dos cabelos, pintá-los e alisá-los. nós, crianças, tínhamos os cabelos cortados ali, no quintal. me faltam alguns apetrechos, mas vou tentar. não há mais as tias e alguns tios por perto. o corpo é uma construção lenta e detalhada, historicamente e para cada pessoa em particular. hoje homens jovens e maduros se depilam, coisa que seus pais não faziam. agora faço.
imagino que há alguém com situações mais problemáticas que a minha. me vêm à mente as pessoas trans e as que não se identificam com um gênero.por conta da minha sexualidade, pensei que atravessava as fronteiras entre masculino e feminino, mas não. é apenas um vislumbre e também compreendo que seja assim. além disso, tenho camadas e mais camadas de machismo na cabeça a serem debastadas. continuo com as mãos por fazer, mas daqui até o centro, não mais longe que isso, vou encontrar um salão onde me sinta bem.

a dimensão corpóreo-espacial e a etnicidade - 1

uma das cenas que mais me anima a tentar individual e coletivamente a provocar uma fissura nos sistemas interseccionados de desumanização [racismo, sexismo, classismo e outros] é encontrar estudantes indígenas no campus, em um curso especifico como a educação intercultural, ocupando as vagas adicionais criadas a graduação [que podem ser mais ocupadas e apoiadas] ou na pós-graduação [que igualmente podem ser mais ocupadas e precisam ser melhor adaptadas ao contexto indígena e negro].
esta conquista [em processo. que pode ser ampliada e aprimorada] se deve a uma antiga mobilização indígena por uma educação diferenciada e por elxs protagonizada que vem, provavelmente, desde que o primeiro povo foi chamado de indígena, posto a trabalhar e cristianizado à força. se deve também à mobilização indigenista de varixs antropólogxs, advogadxs, linguistas, historiadorxs e poucxs missionárixs.
no mesmo sentido é a animados ver estxs estudantes no bairro ao lado do campos ocupando casas ou quitinetes, transitando por padarias, farmácias, restaurantes e outras lojas. sei e também imagino que varixs têm uma situação difícil desde a falta de bolsas, sobretudo para a pós-graduação, passando pelo afastamento de suas famílias e aldeias, até as discriminações no espaço acadêmico [por docentes, discentes e, eventualmente técnicxs e o epistemícidio: quantxs autoras indígenas você leu? que conceitos indígenas você reconhece?].
em 1993 eu conversava no pátio da faculdade de filosofia, letras e ciências humanas da universidade de são paulo com Daniel Munduruku e Olivio Jekupe que se tornaram grandes escritores. estudantes indígenas e negrxs de procedência distante, éramos corpos estranhos no espaço branco e eurocêntrico, almejando crescer, viver e provocar fissuras [com pouquíssimos apoios]. era uma semente que germinou porque foi aguada de dentro, como deve ter sido em outras um universidades, cidades e estados.
pessoas e grupos indígenas não constituem grupos raciais, mas sofrem racismo. uma das confrontações é o crescente número de pesquisadorxs "de dentro", escritorxs, autorxs, professorxs, profissionais que riscam o espaço insípido, incolor e inodoro da torre de marfim. sabem de onde vêm e têm orientação para ir adiante.
[complementação: a vida acadêmica é apenas um dos caminhos de construção do saber para os povos indígenas e outros subalternos. outra coisa: as escolas e universidades não indígenas da forma que estão organizadas, baseadas, não suportam os saberes indígenas. apenas permitem algumas entradas]

terça-feira, 8 de maio de 2018

a bicha e o rapper

não sei porque a bicha foi gostar do rapper. ele deu chance. olhou, piscou, se mostrou, encostou, deu a entender. ela achou que tinha chance. achou que entendeu. havia fala no olho. havia falas e lutas e mais. havia o rap, a música soul, a percussão. era troca de boné, de brinco, de colar. ia de uma favela para outra favela. tinha o ensaio, o show, a manifestação. era muito, quase bom. era o de sempre. talvez houvesse desejo. não era coragem. nem era promessa. houve visita de um para outra e o contrário. houve separação. o rapper chorou. o que era?

segunda-feira, 7 de maio de 2018

a cidade do espanto

a cidade do meu retorno
cidade que me espanta
feita por minhas avós
e meus avôs
minhas mães e meus pais
cidade de uma dívida

casa demolida
favela removida
ocupações renitentes

a parte que fizemos está guardada

ônibus nervosos
carros raivosos
motocicletas sensuais
bicicletas de trabalho e de passeio

cidade de canções percutidas
movidas a violões ou sanfonas
tocadas em alto volume
nos fones, nas rodas, nas caixas

nas ruas e nas estações
quem eu quero
os homens pretos
os homens pardos
que são todos negros
de preta e indígena ascendência

alguns eu guardo nos olhos
outros eu escondo o nome e o querer
um ou outro eu levo
para a intimidade

cidade de mulheres pretas e índias
das travestis e mulheres trans
cidade de "boys" e bichas

a parte que faremos não está garantida

cidade da pegação e da transa
nas ruas, nos bares,
nas boates,  nos motéis
cidade da transgressão
e da coisa certinha

cidade de malabares, grafites e pichos
de um medo inventado
e uma violência vendida

os terrenos tomados pelos brancos e ricos
os terrenos de pretos e pobres e a insistência
a polícia defendendo os primeiros
ultimando os últimos

o centro de usos populares
o centro de personagens das margens

cidade de espíritos originários e transplantados
de igrejas à mostra e terreiros quase escondidos

cidade que já não me espanta
cidade da raça, do sexo, da grana
do amor rastreado
em poucas edificações
e quase proibido na praça

quinta-feira, 5 de abril de 2018

a volta

queriam que eu voltasse
voltei

era a volta de um desejo
amigo, companheiro, amante
era


queriam que retornasse
retornei


era o retorno da fala, da fé, do ânimo
era


vi as portas
vi os portões
atravessei


era eu movido pelos dias
movido a cada dia


voltando
voltando

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

ori-entações

uma cabeça, um corpo
inúmeras seções
um centro
inumeráveis direções


[ori = cabeça em Yorubá, Nigéria, África]

terça-feira, 8 de novembro de 2016

quanto ao tempo

quanto ao futuro
a boca falava em troco e no oco

quanto a apenas um dia
a boca dizia e desdizia o que preza, o que reza

quanto ao horizonte, havia quase ontem por dentro
o olho quis saber o que escrevia e via


viu o resto da noite e a réstia do dia