quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

o vento, essa mulher

o vento, essa mulher

determinada força
força determinada
demanda proteção
é protegida

salta barreira
não há rua fechada
ela passou por nós

salta a mulher alta
na nossa frente
por cima de nós

damos volta e meia 
sabemos onde está
onde estará?

ruas de gente de sua cor
ruas vestidas de branco e vermelho
pra ela passar
com o vento
como o vento

ela foi
ela virá
ela está

domingo, 10 de novembro de 2013

a parte

cada parte é ínfima
cada parte é um clichê da carne

o rastro de eros em cada parte
nos ombros
entre os dedos
no lóbulo da orelha
nos pelos, nas palmas
estica a pele como se fosse um teste

eu aplico, eu passo

ainda assim
os ossos e o espírito não cabem nos tecidos
o rastro é extenso

cada parte fica exposta
no clichê da meia luz
para cada uma, para os dois
em cada parte cabe o detalhe de uma cena

eu expiro, quase durmo

sem nenhum fonema
eu digo, eu tento
não é clichê, não é drama

é minha parte
parte minha esticada
sob a mesma luz
que lhe suspende e lhe arrasta

à parte do mundo
que aplica o olho enviesado
sobre o rastro

eu inspiro, eu paro
quase paro, eu digo

terça-feira, 29 de outubro de 2013

da asa

não é toda asa que faz voar
dizem os anjos de procissão
quase sobre-humanos voadores
quase

há asas materiais inumanas
em mãos meninas voadeiras
viajantes

tem (não tem) as asas quebradas
sem graça
das xícaras de casa

se este não for o poema da asa
que outro seja

o poema dá asas

eu não perco a graça
fico em mãos voadeiras
voo, subo, viajo e até caio

muito além da procissão
que só vai de casa até à igreja

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

era, erra

era cigarra
artista, não era
era ressonância

quem suportaria
o som em si
por tanto tempo

errou o voo
entre o vidro e a alvenaria
gastou a asa forte e delicada

era sound

erra cigarra
erra silêncio

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

dois um

esses dois são três
não vejo nenhum

vem uma
vem outro
vem mais um
vem do longe-perto
que o espírito mais velho
bem velho
palmilhou

dois dois
uma uma
ponta-cabeça
nenhuma

quanta cor
que nem cabe na vista
quanto sabor
mais que o gosto
acredita

duas duas
três um
vestidinhos de festa
vi tudinho


nunca virei um

domingo, 22 de setembro de 2013

itinerário

da flor do sertão
à flor da praia
tudo se despetala no rasgo do itinerário
fora da paisagem própria
do jardim das obviedades

bem te quero
mal te quero
não quero nada de mal

floresço dentro de um coração esvaziado
cresço em fibra de pétala
todo dia me mostro e me guardo

bem querida é tua flor
fulô bendita
jardim em viagem
itinerário



sábado, 21 de setembro de 2013

marca

escrita
com o espinho 
árido

inscrita
na rocha
rupestre

ínfima
com um grão

atemporal
vermelho e ocre

adscrita
ao verde seco do sítio
pintura de gente
riscado na roupa

áspera
como a terra
e ainda mais como a cerca

da cor do vaqueiro
e como ele
escravizado e livre

da cor da benzedeira
livre, jamais escravizada
cor da rainha
desta margem
deste platô - pequeno e pouco

ao som da banda
a cabeça abençoada
uma dança sutil e acrobata

o grande, o muito
pela estradinha
na praça
pelo terreiro
na sala da casa

espelho e fita
na roda
na gira

íris encantada
às custas de ervas

infusão de folha
na garrafa da alma


segunda-feira, 16 de setembro de 2013

ébano e púrpura

a suspensão do corpo
ébano e púrpura
nas ruas
na pista
nas salas
no palco

se eu for essa rua, essa ladeira
me atravesse
se eu for esse palco, essa pista
dance

se você for esta sala
de reuniões
de aula
eu converso, eu estudo

se você for aquele livro
eu leio, eu anoto

se você for suspenso
nós o alcançamos com a mão
e dançamos
na superfície que nos resta

púrpura e ébano

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

maria outra

maria não vai com as outras

as outras são muito mais que outras
cada uma é uma
maria é todas
maria é una

e quando quer
maria torna-se outra

se quiser
se for preciso
maria vai com as outras

domingo, 11 de agosto de 2013

o frio

o vento é frio
algo mais é

aqui dentro
o que sei do mundo é pequeno

tudo é o corpo
e os objetos em sua geometria
parados
parados
parados

enquanto não acontece a música
o reggae
que canta o tema

no frio
algo mais é

está entre o corpo
e o desenho dos objetos

coming from the cold

o reggae

aquece o poema

terça-feira, 6 de agosto de 2013

preciso delas

leve
peso
leve

levo
peso

tiro as palavras do lugar
coloco umas sobre as outras
com as outras
contra as outras
sem as outras

fica o resíduo das palavras
sobretudo impressas
um amontoado delas
palavrório desfeito

se perdem as cores
a cor
em outro lugar, a cor
sobre-vive, super-vive

leve
levado
por elas
com elas
contra elas
sem elas
e elas contra o inaudito

pesado
pesado
não tanto por causa delas

levo
peso
levo


preciso delas

quarta-feira, 24 de julho de 2013

paisagem turva

essa paisagem turva
não é chuva
é lágrima

os braços abertos
os dedos ágeis
o corpo que treme

essa harmonia
entre amor e tristeza
dor e saudade

não é mal algum
é uma sinfonia
numa sanfona só

o desacordo
no acordeon

repito
não é refrão

essa paisagem turva
não é chuva
é lágrima


[para Dominguinhos]

quarta-feira, 10 de julho de 2013

enquadramento

retângulo de ilusão que me atrai
a meio palmo, no ônibus, na aeronave
a meio metro, um pouco mais, no espaço da rotina

enquadramento rápido
por onde passa o filme curto que queria ter feito
e aquela pessoa que não pára

diante dela, tela, janela
quem se ilude, quem ilude, quem
observa cenas fluídas, vãs, ligeiras

a via que corta a cidade de oeste a leste,
a rua luminosa: bares, teatros, boates, frege
o centro antigo, a cidade baixa, a elite longe
a praia lotada, mais ao norte, os tons da gente em primeiro plano
quase ninguém pára

meu ouro para a mulher-em-close e sua pergunta certa
nada mais que minha pele-estojo na frente do cara

ilusão refeita
próxima tela, janela
ela

quarta-feira, 3 de julho de 2013

frases soltas

até aqui tudo bem
antes disso ninguém imaginava nada
meu sorriso é [o] seu
minha dúvida é [a] sua
não tiro conclusões apressadas
não é o que as pessoas estão pensando
sua insônia é [a] minha
seu silêncio é [o] meu
amanhã será um outro dia
no céu há dois pássaros voando

segunda-feira, 1 de julho de 2013

filmagem

longe do olhar que devora
ou compra

sem imitar o território de lá
insípido incolor inodoro

sem dizer de modo apressado
que o território de cá
é
temperado colorido perfumado

nenhum sexo explícito vulgar
com o nosso corpo público

fique apenas imaginando
um parte do filme que fazemos

planos de silêncio/fala
de sussurro/riso
cenas de prazeres/dores
da nossa gente transplantada

o sabor
a cor
o odor

dos entes, das ervas, dos ritos
que cultivamos

segunda-feira, 24 de junho de 2013

cada lado da janela

um corpo se esgueira
megafone
sirene
outros, vários, muitos

o poeta-colina com o olho antecipado
faz o verbo, o substantivo
a razão-instrumento
quer saber se é um gueto, um levante

quando a janela deixa
imagina-se que o sarau é preto
o corpo-síncope que estava no terreiro
recebe a luz na sala

quatro lugares em cada urbe
dez metrópoles esquadrinhadas

esgueirado corpo
sincopado corpo

uma carta de liberdade
em cada lado da janela

traz um poema entrelinhado

segunda-feira, 3 de junho de 2013

mãe outra

por fora a mãe é recriada por filhas-filhos. mesmo quando não se veio de dentro. mesmo quando a mãe é o mundo, a cidade, a rua. quando filha-filho vem de um reconhecimento, um cultivo, há metamorfoses em exercício: o dentro, o fora, é dentro ainda. um dentro extenso. segredos são necessários. conflitos são totalmente precisos. depois do primeiro corte, cada laço tem que ser um pacto.

mãe não é apenas feminino. não é deusa, rainha ou santa. não é o contrário de pai, assim como avó não é uma grande-mãe. mãe pode ser inventada em forma de dor, autoridade ou prazer. mãe pode ser adotada. 

mães podem não saber nada sobre tempo, vida e maternidade. mães podem viver sem culpa após um aborto ou sete partos. mãe pode ser muitas mulheres. mãe pode parir a diferença. gerar gays, lésbicas, pessoas trans e drag queens. mãe pode recusar essa identidade.

mãe: arquétipo. mãe: estereótipo. outra mãe: possibilidade


[São Paulo, 1997. Rescrito em 2013]

quinta-feira, 30 de maio de 2013

voo baixo

nunca pensei que anjos voassem
tão baixo
e que gostassem de perigo

estes anjos são antigos
como a minha infância
e sem ela não teriam sentido

creio em tudo isso como criança:
anjos, voos, perigo

o relógio de ponteiros gira
ao contrário
você diminui de tamanho
e aparece no meu delírio

tempo bom, roda do mundo
ouvir conversa de anjo
é um grande risco, meu amigo

[2001]

sexta-feira, 24 de maio de 2013

difícil


o caminho difícil
primeira vez, noite deserta
rota de gente nativa, fugitiva
o passo livre, mas frágil

a rima difícil
o gosto do vinagre
a experiência do milagre
o agreste, não o agressivo

a troca difícil
partes do corpo inteiro
mão, ombro, ouvido
para o conselho, o flerte, o afeto
até tornar-se, ser, a outra pessoa em si
a outra em você

os dias difíceis
quando se quer mais
o desejo daquela criatura
daquele lugar
os dias impossíveis

as horas difíceis
um amor partido, uma amizade quebrada
um fio de vida rompido
muita rotina, pouco prazer

estranho, complicado, difícil
o tempo de ficar só
não há ninguém
nem uma, nem um

sozinho é difícil
como se pode saber
a medida da dificuldade

sábado, 13 de abril de 2013

invólucro


invólucro. espaço palco. caixa de ressonância de um silêncio absurdo. envelope aberto, rasgado. pele abandonada. crisálida de meninas, de meninos. matéria orgânica naturalizada. partícula que foi corpo, arquitetura, cidade. 

um teatro fechado. quadrado de alvenaria, madeira, ferro e outras coisas envelhecidas. rastro da companhia, da peça encenada, da casa lotada. 

outro lugar. invólucro da estrutura corpórea vã. pletora de marcas da classe, do gênero, da raça. doce e amargo gueto. cidade-armário onde uma figura não é somente masculina ou feminina. plataforma de humanos aliados ao maquinário, enxertos, próteses. traço e traçado de seres. uns prontos, outros incompletos como indica o mapa. 

não há mercado de peles, nem a primeira, nem a segunda. no teatro: paredes inexistentes. luz por baixo, pelos lados e obviamente por cima. pele-figurino. negritude andrógina. cara pálida e máscula. feminismo-mulher na pele-panfleto metálica e dourada. 

o voo visto por dentro da casca, da máscara, da árvore. o texto arrancado da experiência. até da mais sutil, da mais suave. 


[Para Sidney Santiago (São Paulo) e Paulo Jorge Vieira (Lisboa)]

domingo, 31 de março de 2013

desalinhado

li, recortei, cortei
escrevi aos pedaços, linha sobre linha
a pretexto de artesanato
tesoura nos olhos, sons cortados

foi a corte, eu disse
pequena máquina
para dizer a grande coisa
no desalinho diário

linhas pretas, antes encarnadas
pele arranhada em fuga
para mais dentro ainda
onde está o gume: na garganta

li, rascunhei, cunhei
entre a mão e a língua
o dito e o não dito, esfarrapados
inteiros no quadro da leitura vã

se não era para contar, contei
tantas vezes cada frase
não me arrependi
tinha o que despedaçar
a língua o que falar

escrevi, li, madeira não comeu
a tarde-noite teve seu escuro-claro
de cada coisa dita, mal-dita, escrita
alimento eu fiz

ouvi, vi, ou-vislumbrei

quinta-feira, 21 de março de 2013

passagem/mensagem

[passagem]

uma brutal ausência nas altas cortes
nos leva a outras paisagens

não é o Valongo em seu ápice
não é o mercado do Barés na ilha de São Luís

há uma exposição sarcástica das gentes
uma cópia mal feita, estampada

vimos na passarela de moda
no programa de entretenimento
no pátio de uma universidade

a palidez do fantasma vem acompanhada de asco
o olhar do mercador de escravas
e o silêncio do consentimento

[imagem]

estamos bem aqui para falar de tudo isso
no quadrado das mesas, janelas, telas, páginas
ao som acústico ou eletrônico de músicas antigas

na casa: espelhos de mão, vasos com água e alguidares de comida farta
na forja: adagas, espadas e machados de dupla face
na alma: desenhos e palavras

ao primeiro toque, fazemos aquele movimento

[mensagem]

sábado, 16 de março de 2013

matéria prima

minha matéria prima é abstrata
minha mãe continua sendo gerada
em sete mulheres concretas

antônia    lilia      dadá    maria
                        maria   jorge
                        maria   gato
                        maria   bonita

meu filho nasceu logo depois de mim
e não terminei ainda de fazê-lo
(sem aquela mulher imaginada
a maternidade permanece desejada)
o corpo do pai é uma metáfora

fiz amor na guerra, camarada
despejei balas e alguma lágrima
nunca bebi leite derramado
matei o bicho que precisava

perdi meu medo na cidade
encontrei ele de novo na sua cara
lobisomem de homem dá risada
(não é camarada?)

cafuné de cangaceiro, é moda
anel
bornal
chapéu florido é indumentária
no rio e na mata ou no arremedo de rio e de mata
o deus menino aponta o dedo da doce revolta

abro a porta e estou sempre por fora
do lado de dentro tem uma poeira fina
o relógio apita e o coração falha
conversa de mãe é coisa pesada
o contrário é quase verdadeiro na mentira

deusa livre, deusa me livre
a realidade me atrapalha
me dê a sua língua e sua cortante fala
me engula devagar e aos pedaços
minha paúra, minha aura, minha jura
minha matéria prima abstrata

sábado, 2 de fevereiro de 2013

em gotas salgadas


o sal dessas águas está longe
o mundo aquático, marítimo é uma ficção diária
sabem que há casas móveis, sabem dos efeitos da origem
provam a falta

provam do sal, da água, do mito
se banham, mergulham, se perdem
a mão se liga à pessoa pelo fio que somente ela vê e segura
como se fosse o primeiro cordão

salgada
fica a parte abaixo das pálpebras
a pele amada
e uma palavra composta que abriga esta sinuosidade
[como agridoce
diz o que é
e pronto]

suas águas, sal
tempero de uma longa história que se atrevem a contar
na hora em que dois mundos se encaixam

o longe, todo rio, aquífero, doce
o perto
peixe esvaziado pela boca e devolvido a ela
o perfume daquele banho, mergulho, perda
achado

gotas de sal como se pudesse haver música
rumor de ondas
som de conchas
extensão do silêncio na epiderme

o fio é forte

sábado, 26 de janeiro de 2013

o par, em passo


do centro do brasil
por volta do meio dia
parte um ônibus pro maranhão
e outro pra bahia

ela viaja num deles
em direção à terra preta, azul, areia

lá, aqui e acolá
há uma casa numa rua conhecida
um lar
um local de trabalho, ócio, arte

onde o par, em passo, a dois
desafia o terreno
desfia a pouca luz

traceja a casa de adobe
a caixa do teatro
as voltas dos fios, cabelos, tecidos
ela reponta

quem compõe o par se estende, se despedaça, se inteira
o fluxo do norte e do leste
leva para o centro o passo

sou todo janela, coxia, beira