sábado, 26 de janeiro de 2013

o par, em passo


do centro do brasil
por volta do meio dia
parte um ônibus pro maranhão
e outro pra bahia

ela viaja num deles
em direção à terra preta, azul, areia

lá, aqui e acolá
há uma casa numa rua conhecida
um lar
um local de trabalho, ócio, arte

onde o par, em passo, a dois
desafia o terreno
desfia a pouca luz

traceja a casa de adobe
a caixa do teatro
as voltas dos fios, cabelos, tecidos
ela reponta

quem compõe o par se estende, se despedaça, se inteira
o fluxo do norte e do leste
leva para o centro o passo

sou todo janela, coxia, beira

sábado, 12 de janeiro de 2013

o retorno da pergunta


a voz máscula [vez por outra] fala do feminino como se viajasse para além dos envelopes corporais. o corpo de cada homem se cala sobre si mesmo. voz e pensamento nem sempre correm na mesma passada. há respostas que vêm antes do nascimento da pergunta. outras dúvidas renitentes permanecem sem conclusão.

em volta de uma mesa duas pessoas entabulam uma prosa. a poesia pode estar na fala que porta vontade de beleza. o tema é intrincado e a voz voa baixo [raramente se eleva]. nomes desfilam e ninguém se engane com isso: esculturas de osso, carne e sentimento são tocadas com cuidado extremo.

descobre-se tão tarde que não se é mais criança. e o que se é agora, camarada, parceiro dos lampejos sensatos? da casa para a rua, como se faz um homem [e em quanto tempo]? quantos irmãos se encontram na família desejada?

até os camaleões se parecem entre si em sua metamorfose. peixes voam, pássaros nadam. a criatura imagina inquirir o criador. o edifício masculino passa por uma reconstrução. projeto interativo com a necessária interferência do feminino [mesmo quando os atores imaginam expulsar a mulher do paraíso].

o repertório dos desejos se amplia para alguns homens. vida não se resume a uma palavra. há tantas maneiras de ser homem entre as mulheres e entre os próprios homens.

num tempo em que tudo parece visível, pouco se sabe sobre os movimentos dos corpos. certas perguntas somente a corporeidade responde.

São Paulo, SP, 2001.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

quadrado de ondas


quadrado de ondas. caneta esferográfica sobre papel. esboço.

Goiânia, Goiás, Brasil, 2011.

o amor livre-libertado

o cheiro do café na casa vizinha
aquela falta aqui na sala, no quarto
as canções sem aqueles ouvidos
os olhos sem essa imagem
a voz sem comentário

o amor-amado que veio de longe e perto
de navio e depois a pé, livre, libertado
só sabe o que é pele, parede, porta

na casa de lá deve estar bom
deve haver flores e frutos
duas cadeiras ocupadas
um riso, uma pausa, um abraço perfumado

em alguma casa
deve haver o amor livre-libertado


Goiânia, Goiás, Brasil, 2012.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

registro

a fala parecia toda língua
foi toda corpo
em parte anotada

aquém e além havia música
descrita
cartografada
canção de rua, quintal e sala

a fala continha o ensaio
o desfile
as meninas e as senhoras
mulheres criadoras
meninos e homens de todas as idades

num ponto do mapa: violão e cavaco
no outro: sanfona e viola
nos dois: pandeiros
e um apito que comanda
a música que anda
e pára
escrita
descrita
no artesanato da letra

a fala parada
continha o tempo
o contratempo
paisagem-voz
linguagem-mapa
a criação dessa gente
nas canções enfileiradas

um olho-aprendiz 
e um caderninho junto aos instrumentos

Belo Horizonte, MG, Brasil, 2012.

fórum áfrica



esboço para logomarca do Fórum África 

São Paulo, SP, Brasil, 1999.

cortejo, reinado e congada



cortejo ao lado da ferrovia Goiás-Minas Gerais
Festa de N. S. do Rosário. 

Goiandira, Goiás, Brasil. 2012.

caminho para o rio no quilombo


Caminho para o Rio. 
Quilombo de conceição dos Caetanos. 

Tururu, Ceará, Brasil, 2011.

manuscritos

há tempos minhas mãos não sabem o que é folhear páginas manuscritas. para voltar a essa experiência preciso revirar meus alfarrábios ou estar com intenções de pesquisa. devo passar longas tardes em arquivos. devo redigir diários de campo (e os prefiro feitos à mão) em aldeias e comunidades conhecidas que, no fundo, não constituem meu mundo. necessito estar disposto a rever as cartas que minha mãe, minhas amigas e uns poucos homens me escreveram.

tomei grande distância em relação ao desenho e ao tremelicar das caligrafias pessoais. refiro-me aos meus próprios manuscritos e àqueles que me foram dirigidos ou me tocavam de perto. não escrevi cartas de amor e não as recebi. pessoa me advertiu a tempo. lembro a escrita de minha mãe e de meu pai como imagens firmes da minha trajetória no mundo e não há porque novamente escrever cartas para os dois apesar do distanciamento geográfico. os livros de anotações depositados em arquivos trazem os registros de mortos que para encontrá-los e dar-lhes sentido necessito incomodar um sem-número dos vivos.

respeito os cadernos de adolescentes. vejo a escrita sinuosa das crianças como uma fase cujo esforço talvez não as leve (com exceções) à experiência da escrita e – em particular – da confecção de manuscritos. o texto escrito à mão parece reservado para os espaços curtos dos fichários e para essas fases da infância e da adolescência.

cartas enigmáticas e poemas bobos – criados em dias inteiros quando menino – mal podem ser rememorados. foram perdidos em vez de tornar-se objetos biográficos. quase fui burocrata e preenchi agendas por anos seguidos. suas páginas contêm índices e relatos parciais de eventos que certamente me tomaram tempo e agora fazem parte de uma vida que vivi e que dou como morta. aqui e acolá há poemas que pretendia densos e soam igualmente abobalhados. tantos anos escrevendo coisas que a terra engoliu. o lixo banal da elevada atividade de escrever à mão.

com meu acervo de lapiseiras, canetas e papéis somente faço rabiscos e componho um palavrório desconexo. mal aproveito o repertório de pontos, linhas e grafismos em atividades correlatas. ler ou escrever partituras outra vez seria impossível porque o pretenso músico jamais se constituiu. imagino arquiteturas e não posso dizer que as projeto. afora o que me exige o trabalho, não escrevo diários que eu mesmo não suportaria reler. as idéias passam direto do meu cérebro – para além da mão – por miríades de conexões e se decodificam em mensagens eletrônicas expostas em telas ou impressas.

faço a promessa de dar um destino para a escrita à mão: escreverei em corpos humanos que assim portarão um duplo texto como fazem os povos que se pintam. enquanto isso, divido meu tempo entre a máquina com a qual produzo meus escritos e a prática refinada da oralidade. de forma imodesta, à semelhança de arthur bispo do rosário, reafirmo: eu preciso destas palavras. aquelas que a toda hora me atormentam.

São Paulo, SP, Brasil, 2000.

quase fixo

o poema diante dos olhos
quase fixo

leitura, escuta, escrita
o poema quase fixo

certa palavra acontece ali
podia ser aqui
bem aqui
bem

no entre-tempo
no entre-lugar
onde não há
não havia

quase fixo

parecia o mar, a margem
as palavras proferidas e as imaginadas
entre lá e cá

eram duras, não eram metal ou pedra
era a plataforma
onde se cai
de onde se salta

diante dos olhos e por trás
âmago
bem aqui

nem letra ou fonema ainda
só o mar quase fixo
rascunho secular
no rosto, no dorso, nos pés

a dor diante dos olhos
quase fixa
algo sublime além dos campos extensos
sucumbidores

cana que se torna açúcar e doce
café torrado na folha de flandres que se torna café e moído à mão se torna café
algodão que se torna fio e roupa

indumentária da alma que escreve e dança
nada mais fixo
tudo se torna
entorna

o poema se move
se planta

Goiânia, Goiás, Brasil, 2012.