quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

manuscritos

há tempos minhas mãos não sabem o que é folhear páginas manuscritas. para voltar a essa experiência preciso revirar meus alfarrábios ou estar com intenções de pesquisa. devo passar longas tardes em arquivos. devo redigir diários de campo (e os prefiro feitos à mão) em aldeias e comunidades conhecidas que, no fundo, não constituem meu mundo. necessito estar disposto a rever as cartas que minha mãe, minhas amigas e uns poucos homens me escreveram.

tomei grande distância em relação ao desenho e ao tremelicar das caligrafias pessoais. refiro-me aos meus próprios manuscritos e àqueles que me foram dirigidos ou me tocavam de perto. não escrevi cartas de amor e não as recebi. pessoa me advertiu a tempo. lembro a escrita de minha mãe e de meu pai como imagens firmes da minha trajetória no mundo e não há porque novamente escrever cartas para os dois apesar do distanciamento geográfico. os livros de anotações depositados em arquivos trazem os registros de mortos que para encontrá-los e dar-lhes sentido necessito incomodar um sem-número dos vivos.

respeito os cadernos de adolescentes. vejo a escrita sinuosa das crianças como uma fase cujo esforço talvez não as leve (com exceções) à experiência da escrita e – em particular – da confecção de manuscritos. o texto escrito à mão parece reservado para os espaços curtos dos fichários e para essas fases da infância e da adolescência.

cartas enigmáticas e poemas bobos – criados em dias inteiros quando menino – mal podem ser rememorados. foram perdidos em vez de tornar-se objetos biográficos. quase fui burocrata e preenchi agendas por anos seguidos. suas páginas contêm índices e relatos parciais de eventos que certamente me tomaram tempo e agora fazem parte de uma vida que vivi e que dou como morta. aqui e acolá há poemas que pretendia densos e soam igualmente abobalhados. tantos anos escrevendo coisas que a terra engoliu. o lixo banal da elevada atividade de escrever à mão.

com meu acervo de lapiseiras, canetas e papéis somente faço rabiscos e componho um palavrório desconexo. mal aproveito o repertório de pontos, linhas e grafismos em atividades correlatas. ler ou escrever partituras outra vez seria impossível porque o pretenso músico jamais se constituiu. imagino arquiteturas e não posso dizer que as projeto. afora o que me exige o trabalho, não escrevo diários que eu mesmo não suportaria reler. as idéias passam direto do meu cérebro – para além da mão – por miríades de conexões e se decodificam em mensagens eletrônicas expostas em telas ou impressas.

faço a promessa de dar um destino para a escrita à mão: escreverei em corpos humanos que assim portarão um duplo texto como fazem os povos que se pintam. enquanto isso, divido meu tempo entre a máquina com a qual produzo meus escritos e a prática refinada da oralidade. de forma imodesta, à semelhança de arthur bispo do rosário, reafirmo: eu preciso destas palavras. aquelas que a toda hora me atormentam.

São Paulo, SP, Brasil, 2000.

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