domingo, 31 de março de 2013

desalinhado

li, recortei, cortei
escrevi aos pedaços, linha sobre linha
a pretexto de artesanato
tesoura nos olhos, sons cortados

foi a corte, eu disse
pequena máquina
para dizer a grande coisa
no desalinho diário

linhas pretas, antes encarnadas
pele arranhada em fuga
para mais dentro ainda
onde está o gume: na garganta

li, rascunhei, cunhei
entre a mão e a língua
o dito e o não dito, esfarrapados
inteiros no quadro da leitura vã

se não era para contar, contei
tantas vezes cada frase
não me arrependi
tinha o que despedaçar
a língua o que falar

escrevi, li, madeira não comeu
a tarde-noite teve seu escuro-claro
de cada coisa dita, mal-dita, escrita
alimento eu fiz

ouvi, vi, ou-vislumbrei

quinta-feira, 21 de março de 2013

passagem/mensagem

[passagem]

uma brutal ausência nas altas cortes
nos leva a outras paisagens

não é o Valongo em seu ápice
não é o mercado do Barés na ilha de São Luís

há uma exposição sarcástica das gentes
uma cópia mal feita, estampada

vimos na passarela de moda
no programa de entretenimento
no pátio de uma universidade

a palidez do fantasma vem acompanhada de asco
o olhar do mercador de escravas
e o silêncio do consentimento

[imagem]

estamos bem aqui para falar de tudo isso
no quadrado das mesas, janelas, telas, páginas
ao som acústico ou eletrônico de músicas antigas

na casa: espelhos de mão, vasos com água e alguidares de comida farta
na forja: adagas, espadas e machados de dupla face
na alma: desenhos e palavras

ao primeiro toque, fazemos aquele movimento

[mensagem]

sábado, 16 de março de 2013

matéria prima

minha matéria prima é abstrata
minha mãe continua sendo gerada
em sete mulheres concretas

antônia    lilia      dadá    maria
                        maria   jorge
                        maria   gato
                        maria   bonita

meu filho nasceu logo depois de mim
e não terminei ainda de fazê-lo
(sem aquela mulher imaginada
a maternidade permanece desejada)
o corpo do pai é uma metáfora

fiz amor na guerra, camarada
despejei balas e alguma lágrima
nunca bebi leite derramado
matei o bicho que precisava

perdi meu medo na cidade
encontrei ele de novo na sua cara
lobisomem de homem dá risada
(não é camarada?)

cafuné de cangaceiro, é moda
anel
bornal
chapéu florido é indumentária
no rio e na mata ou no arremedo de rio e de mata
o deus menino aponta o dedo da doce revolta

abro a porta e estou sempre por fora
do lado de dentro tem uma poeira fina
o relógio apita e o coração falha
conversa de mãe é coisa pesada
o contrário é quase verdadeiro na mentira

deusa livre, deusa me livre
a realidade me atrapalha
me dê a sua língua e sua cortante fala
me engula devagar e aos pedaços
minha paúra, minha aura, minha jura
minha matéria prima abstrata