domingo, 31 de março de 2013

desalinhado

li, recortei, cortei
escrevi aos pedaços, linha sobre linha
a pretexto de artesanato
tesoura nos olhos, sons cortados

foi a corte, eu disse
pequena máquina
para dizer a grande coisa
no desalinho diário

linhas pretas, antes encarnadas
pele arranhada em fuga
para mais dentro ainda
onde está o gume: na garganta

li, rascunhei, cunhei
entre a mão e a língua
o dito e o não dito, esfarrapados
inteiros no quadro da leitura vã

se não era para contar, contei
tantas vezes cada frase
não me arrependi
tinha o que despedaçar
a língua o que falar

escrevi, li, madeira não comeu
a tarde-noite teve seu escuro-claro
de cada coisa dita, mal-dita, escrita
alimento eu fiz

ouvi, vi, ou-vislumbrei

Nenhum comentário:

Postar um comentário