sábado, 16 de março de 2013

matéria prima

minha matéria prima é abstrata
minha mãe continua sendo gerada
em sete mulheres concretas

antônia    lilia      dadá    maria
                        maria   jorge
                        maria   gato
                        maria   bonita

meu filho nasceu logo depois de mim
e não terminei ainda de fazê-lo
(sem aquela mulher imaginada
a maternidade permanece desejada)
o corpo do pai é uma metáfora

fiz amor na guerra, camarada
despejei balas e alguma lágrima
nunca bebi leite derramado
matei o bicho que precisava

perdi meu medo na cidade
encontrei ele de novo na sua cara
lobisomem de homem dá risada
(não é camarada?)

cafuné de cangaceiro, é moda
anel
bornal
chapéu florido é indumentária
no rio e na mata ou no arremedo de rio e de mata
o deus menino aponta o dedo da doce revolta

abro a porta e estou sempre por fora
do lado de dentro tem uma poeira fina
o relógio apita e o coração falha
conversa de mãe é coisa pesada
o contrário é quase verdadeiro na mentira

deusa livre, deusa me livre
a realidade me atrapalha
me dê a sua língua e sua cortante fala
me engula devagar e aos pedaços
minha paúra, minha aura, minha jura
minha matéria prima abstrata

Um comentário:

  1. Esse texto tem o padrão Ratts de intensidade. Voltei a ele já uma quatro vezes. Fantástico, querido, Fantástico.

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