quarta-feira, 24 de julho de 2013

paisagem turva

essa paisagem turva
não é chuva
é lágrima

os braços abertos
os dedos ágeis
o corpo que treme

essa harmonia
entre amor e tristeza
dor e saudade

não é mal algum
é uma sinfonia
numa sanfona só

o desacordo
no acordeon

repito
não é refrão

essa paisagem turva
não é chuva
é lágrima


[para Dominguinhos]

quarta-feira, 10 de julho de 2013

enquadramento

retângulo de ilusão que me atrai
a meio palmo, no ônibus, na aeronave
a meio metro, um pouco mais, no espaço da rotina

enquadramento rápido
por onde passa o filme curto que queria ter feito
e aquela pessoa que não pára

diante dela, tela, janela
quem se ilude, quem ilude, quem
observa cenas fluídas, vãs, ligeiras

a via que corta a cidade de oeste a leste,
a rua luminosa: bares, teatros, boates, frege
o centro antigo, a cidade baixa, a elite longe
a praia lotada, mais ao norte, os tons da gente em primeiro plano
quase ninguém pára

meu ouro para a mulher-em-close e sua pergunta certa
nada mais que minha pele-estojo na frente do cara

ilusão refeita
próxima tela, janela
ela

quarta-feira, 3 de julho de 2013

frases soltas

até aqui tudo bem
antes disso ninguém imaginava nada
meu sorriso é [o] seu
minha dúvida é [a] sua
não tiro conclusões apressadas
não é o que as pessoas estão pensando
sua insônia é [a] minha
seu silêncio é [o] meu
amanhã será um outro dia
no céu há dois pássaros voando

segunda-feira, 1 de julho de 2013

filmagem

longe do olhar que devora
ou compra

sem imitar o território de lá
insípido incolor inodoro

sem dizer de modo apressado
que o território de cá
é
temperado colorido perfumado

nenhum sexo explícito vulgar
com o nosso corpo público

fique apenas imaginando
um parte do filme que fazemos

planos de silêncio/fala
de sussurro/riso
cenas de prazeres/dores
da nossa gente transplantada

o sabor
a cor
o odor

dos entes, das ervas, dos ritos
que cultivamos