segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

bagagem

algumas bermudas. uma única calça. camisetas em vermelho, verde, amarelo e mais. cuecas e meias e outras coisas íntimas, pessoais, necessárias. cada peça separada e guardada
as botas de caminhada e a sandália. a mochila solitária como o passageiro. quer dizer, sem outra mochila, outras bermudas, outras camisetas, cuecas e meias. sem outra sandália
black music e música preta brasileira no fone de ouvido. os bilhetes de viagem gastos, os novos. os pensamentos vagos. passageiros

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

o som do sono em Z

1.
só o sono
o som em z
um zoom
aquém da pálpebra
respiro

narina
além da metonímia
expiro

escuto o zom
o som do zé
não-zen
na letra z

na sala o som
de mar/ia
não-sim
não-sem

sem sono

som em zona
de sono
z de quê
zê de zê
z & z

2.
dormente
não durmo
negrito/a
durmo

mama-mar/ia
velou o meu
velo o seu

preparo a cama
a calma/ria

negrito/a
zambi
durma deus/a

drum/a
deus/a

3.
morta/o de sono
irmã/o da morte
é quem conduz

zinga o barco
tambor me nina
nino deus/a

drumorro
abaixo
do eito à esteira
me acalma, zambi

ali-depois não durmo
aqui-agora durmo

o zoom no tu
no muntu
no eu

o Z é teu
é dele, delx
gen sem gênero
"potência Z"

4.
insone
o som na cabeça
apontada pra cume/eira

beira
ladeira
aqui, eu durmo
agora, não

o sonho é doce
mascavo
escravizado
o Z quase ao final

vai e traz
a última letra
primeira do nome
bem-dito antes

um sopro antigo
gente bantu
dorme o sono
em si/m

em cima
há Tempo
em volta
há muito Z



quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O sentido dos rojões

Rojão é um artefato explosivo, um foguete. Rojão também pode ser uma ação, um movimento. O rojão pesado do dia a dia. O rojão de quem faz jornalismo. O rojão de quem milita. Conhecemos o sentido de um dos rojões. Foi fatal.

Em um confronto político, no explodir dos rojões, um cinegrafista é ferido gravemente. Depois morre. A perda humana é devidamente sentida, mensurada, lamentada e prolongada em protestos e discursos sensíveis. Uma investigação muito rápida é desencadeada. Poucas mortes ocorridas neste tipo de situação têm o mesmo tratamento. 

As cenas de confronto político corpóreo, entremeadas por artefatos perigosos (o que inclui câmeras, cadernos de anotações e também cassetetes, escudos, sprays de pimenta e balas de borracha), constituem um dos momentos em que o trabalho de jornalistas, repórteres e, particularmente, cinegrafistas e fotógrafxs é imprescindível. No entanto, a verdade não está no fato. É produzida depois. Outros rojões – torpedos virtuais – são disparados aos nossos olhos-corpos. Vale lembrar que, desta vez, a cena acontece na cidade dos megaeventos luminosos. Luz de fogos de artifício que quase escondem os mega-problemas.

Não merecemos farpas, acusações de tempos sombrios, que retornam com intenções de criminalizar a divergência: “aliciamento de jovens”, "crime de desordem", "lei antiterrorismo".  Não merecemos os discursos enviesados, venham lá de quem quer que seja, de jornalistas, repórteres, advogados, delegados, policiais, parlamentares, comentaristas. Rojões disparados incessantemente por organizações que se tornam estranhas ao que deviam ser. São concessões públicas que subestimam o público e limitam a coisa-vida pública. Há instituições públicas a serviço de corpo/r/ações privadas. 

Diante destas armas virtuais podemos nos tornar um rapaz de vinte e poucos anos, aguerrido antes, perseguido e acuado depois, que diz, desdiz e silencia. Alguém que restará sozinho, pois ninguém merece o carrasco insensível e des/mascarado que está ao seu lado – pago lá se sabe por quem – mas não lhe presta nenhuma ajuda. Mais um que usa seu corpo-voz-silêncio como objeto bélico voltado para muitxs de nós. A repetição de um rosto com marcas, algumas delas invisíveis: "procura-se", "culpado". Signos que acompanham nossas coletividades subalternas.

Contra tais torpedos, o rojão dos movimentos. A ação dos movimentos sociais. O rojão de quem milita. Por transformações, pela emancipação da vida humana encarcerada no par imagem-som que nos enquadra. Contra tudo isso, outra virtualidade – possibilidade – que reside nas nossas falas-balas bem direcionadas.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

balas palavras

balas palavras contra
o látex das balas
balas faladas atiradas
contra
o metal das balas
contra quem as queria
belas

balas-artes
palavras-balas
em direção
ao crânio
ao tórax
de todas as alas

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

o retorno

ele vai
eu não vou
eu voltei
eu estou
ele está

o povo de cima
de antes
de lá
vem aqui
é um só lugar

é lago 
é rio 
é mato 
é
é nado
é caça
é

meninice antiga
é sem idade
é

vai
está
volta
é

é um só 
é um lugar só