quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

O sentido dos rojões

Rojão é um artefato explosivo, um foguete. Rojão também pode ser uma ação, um movimento. O rojão pesado do dia a dia. O rojão de quem faz jornalismo. O rojão de quem milita. Conhecemos o sentido de um dos rojões. Foi fatal.

Em um confronto político, no explodir dos rojões, um cinegrafista é ferido gravemente. Depois morre. A perda humana é devidamente sentida, mensurada, lamentada e prolongada em protestos e discursos sensíveis. Uma investigação muito rápida é desencadeada. Poucas mortes ocorridas neste tipo de situação têm o mesmo tratamento. 

As cenas de confronto político corpóreo, entremeadas por artefatos perigosos (o que inclui câmeras, cadernos de anotações e também cassetetes, escudos, sprays de pimenta e balas de borracha), constituem um dos momentos em que o trabalho de jornalistas, repórteres e, particularmente, cinegrafistas e fotógrafxs é imprescindível. No entanto, a verdade não está no fato. É produzida depois. Outros rojões – torpedos virtuais – são disparados aos nossos olhos-corpos. Vale lembrar que, desta vez, a cena acontece na cidade dos megaeventos luminosos. Luz de fogos de artifício que quase escondem os mega-problemas.

Não merecemos farpas, acusações de tempos sombrios, que retornam com intenções de criminalizar a divergência: “aliciamento de jovens”, "crime de desordem", "lei antiterrorismo".  Não merecemos os discursos enviesados, venham lá de quem quer que seja, de jornalistas, repórteres, advogados, delegados, policiais, parlamentares, comentaristas. Rojões disparados incessantemente por organizações que se tornam estranhas ao que deviam ser. São concessões públicas que subestimam o público e limitam a coisa-vida pública. Há instituições públicas a serviço de corpo/r/ações privadas. 

Diante destas armas virtuais podemos nos tornar um rapaz de vinte e poucos anos, aguerrido antes, perseguido e acuado depois, que diz, desdiz e silencia. Alguém que restará sozinho, pois ninguém merece o carrasco insensível e des/mascarado que está ao seu lado – pago lá se sabe por quem – mas não lhe presta nenhuma ajuda. Mais um que usa seu corpo-voz-silêncio como objeto bélico voltado para muitxs de nós. A repetição de um rosto com marcas, algumas delas invisíveis: "procura-se", "culpado". Signos que acompanham nossas coletividades subalternas.

Contra tais torpedos, o rojão dos movimentos. A ação dos movimentos sociais. O rojão de quem milita. Por transformações, pela emancipação da vida humana encarcerada no par imagem-som que nos enquadra. Contra tudo isso, outra virtualidade – possibilidade – que reside nas nossas falas-balas bem direcionadas.


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