terça-feira, 13 de maio de 2014

autonomia: interpretações do 13 de maio

1. abolição formal da escravatura como um ato redentor de elites que, ao mesmo tempo, diminui ou nega os movimentos negros e populares abolicionistas. abolição incompleta. tentativa de esquecimento do crime de lesa-humanidade:

Nós nem cremos que escravos outrora
Tenha havido em tão nobre País...
(Medeiros e Albuquerque/Leopoldo Miguez. Hino da república. 1890)

cidadania incompleta, como aponta Milton Santos. alvo de estudos, de leis e políticas reparadoras.

2. celebração mítica de uma libertação que nunca se completa, na qual se lembra a dor e se sonha com uma nova liberdade, a exemplo das Festas de N.S. do Rosário, São Benedito e Santa Efigênia, realizadas por Reinados e Irmandades Negras, acompanhadas por congados. transcriação de laços ancestrais:

Eu sou um africano
Eu vim para o Brasil contra a vontade
Trabalhar na escravidão de dia e de noite
Sem poder ter liberdade
(Pedro Cassimiro, capitão congadeiro goiano).

sonho de uma liberdade mítica e quase real na sua impossibilidade:

(...) Eu erguia os olhos para o céu para ver se via a residência dos mortos.
– (...) Será que os policiais lá do céu batem nos pretos? Será que os mulatos lá do céu não gostam dos negros?
(Carolina Maria de Jesus. Diário de Bitita. 1986)

3. dia nacional de luta contra o racismo na proposta do movimento negro nos anos 1970, que se desdobra em reações contra a desumanização - o riso, o escárnio, a ofensa, o desaparecimento, a invisibilidade, a morte - das pessoas e coletividades negras marcadas por raça, gênero, sexo e classe:

“As manifestações preconceituosas são tão fortes que, por parte de nossa intelectualidade, dos nossos literatos, dos nossos poetas, da consciência nacional, vamos dizer, somos tratados como se vivêssemos ainda sob o escravismo.”
(Beatriz Nascimento. Por uma história do homem negro. 1974)

04. uma data, um país. um tempo/espaço que retorna amargo em nossas escritas e inscrições, como Sueli Carneiro expressa: “Falarei do lugar da escrava. Do lugar dos excluídos da res(pública)” (A construção do outro como não-ser como fundamento do ser)

a imagem de um corpo seccionado - do eito, ao tronco, à cama, ao hospício, ao presídio – pelo olhar do mercador de escravxs, das sinhás, d’Os fotógrafos e d’Os homens de ciência. um corpo fragmentado, restaurado, individual, coletivo. dor e afeto:

escravizaram assim um pobre coração
é necessária nova abolição

pra trazer de volta a minha liberdade
se eu pudesse, brigaria, amor
se eu pudesse, gritaria, amor
não vou, não quero (Cartola. Autonomia).

nós vamos. nós queremos. nós estamos. nós somos.

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