domingo, 23 de novembro de 2014

no gume da fala

amparo e 
anteparo contra
o amargo

versus

amargo pode-se dizer amaro
contém o amar
verbo desencarnado

o amor contra o amargor
um anteparo no movimento
feito de palavra laminar

no gume da fala
na ponta do corte, da rima
o amar e o amargar

versos

[para Charô Nunes]

terça-feira, 18 de novembro de 2014

a respeito de consciência negra, racismo e reparações

"Sim! Tu é que não podes entender-me, não podes irradiar, convulsionar-se nestes efeitos com os arcaísmos duros da tua compreensão, com a carcaça paelontológica do Bom Senso." [Cruz e Souza - O emparedado]

há um equívoco de entendimento que, no fundo, é uma postura discriminatória e desumanizadora. há quem não entenda porque falamos tanto disso, seja com leveza ou com ira [não entende e não quer entender]

há quem não entenda porque nossa observação e intervenção se pautam na interseccionalidade entre raça, gênero, sexualidade, classe, espaço e outros eixos de dominação, como propuseram as intelectuais negras insurgentes, e que as teorias e literaturas eurocentradas pouco ou quase nada nos interessam [não entende e não quer entender]

há quem não entenda porque exigimos conteúdos sobre África e relações étnico-raciais em todos os níveis de educação, sem esquecer que este quadro leva à discussão sobre antiguidade/ancestralidade africana, colonização, escravidão - racismo -  segregação e descolonização  [não entende e não quer entender]

há quem não entenda porque questionamos a supremacia branca nas imagens, nos espaços sociais - das mídias e dos órgãos governamentais às artes e às ciências e porque lembramos/enfatizamos as referências negras em todos os campos [não entende e não quer entender]

não há como gastar ou perder tempo demais com quem não está dispostx a rever e refazer sua posição hegemônica. para estxs, as leis que, a duras penas, conquistamos [e ainda faltam algumas] 

é de sujeitos individuais e coletivos constituídos em relações de poder que estamos falando. entende? quer entender?

terça-feira, 4 de novembro de 2014

o olho pela janela

palavra nenhuma atravessa a janela
o dito sai pelos olhos
o escrito se esvai

papéis e livros se avizinham em outra hora
o olho ignora o azedume
desconhece o amargo

e vai