sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

recado

dor distante, fora mim
está onde estive. não estou mais

dor extensa sobre o limite meu
não sei o que diga. ou faça

suprema voz, dê o recado
enquanto os pés sentem a falta

linha sem fim, não se quebre
antes do ponto onde algo se reata

sábado, 5 de dezembro de 2015

passado recente

desalinhada, a cama retém o corpo
fermentada, a uva encosta no lábio
tocado, o búzio antecipa o mar

domingo, 18 de outubro de 2015

um domingo com sua cara

um domingo com sua cara. luz do sol e corpo desperto.
preparo das sacolas para ir à feira. revista do que se tem e precisa (o que é pouco). espera da companhia. boa notícia de pessoa do bem querer.
a feira onde voz e sotaque, comida e bebida, dão notícia da gente do bairro e da cidade. da feira para a mesa vai aquilo que diz do hábito e da curiosidade.
disco na vitrola (em transfiguração eletrônica). textos para memorizar e performar. trabalho leve. numa hora dessas, um telefonema percorre os fios que levam à casa de antes.
à noite, outra feira. porque ninguém precisa cozinhar e a cidade está cheia delas.
luz de lua que é de sol. corpo quente, coisa do tempo.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

dona

o caminho é dela
o caminho é ela

ela abre a paisagem
ela abre a passagem

dona das festas
do mundo de lá
dona dos vestidos
das taças e velas
do mundo de lá

o caminho é dela
o caminho é ela

para e gira na porta
da cidade partida
da cidade morta
da cidade viva

para e gira e fala do amor
que não deu certo
que não existiu
que não é amor

para e gira e fala do amor



terça-feira, 15 de setembro de 2015

o nome do corpo


quem sabe do corpo partido. da cabeça. do cérebro. dos neurônios. dos dreads. das voltas dos cabelos. do nervo ocular. da córnea. da íris. dos lábios. das narinas. da traqueia. da laringe. das orelhas. dos tímpanos. dos dentes. das próteses. dos pelos. dos óculos. dos brincos. das escarificações. dos adornos labiais. das miçangas. da roupa.

quem sabe do corpo partido. do fêmur. da espádua. das costelas. das tatuagens. das pinturas. do pescoço. dos ombros. dos cotovelos. das palmas das mãos. dos dedos. dos peitos. do sexo. de outras próteses. das cavidades. do coração. do estômago. dos intestinos. da espinha dorsal. dos joelhos. dos calcanhares. das coxas. das palmas dos pés.

quem cuida do corpo partido. das veias. do sangue. na hora boa. na hora da ira. na hora triste. na fronteira. no muro. na cerca. na margem. no limite de cada movimento. das marcas do tempo de criança. dos ferimentos à bala. na esquina. no beco. na viela. no semáforo. na enfermaria.

quem cuida do corpo partido. seccionado. descrito. inscrito. quem cuida de cada parte. quem escolhe. recolhe. toca. estende. descreve. inscreve. retrata. canta. redime. sob a folha. sobre a palha. sob o algodão. sobre o linho. quem sabe do bálsamo. quem embalsama e quem perfuma. quem cuida de quem cuida e de quem cura. quem leva.

quem vê o corpo partido. quem o vê somente em partes. quem duvida. quem rotula. quem soterra. quem despreza. quem tortura. quem corta. quem arrasta. quem expõe. quem exaspera. quem inspeciona. quem esconde. quem mente. quem lembra o nome do corpo inteiro. quem guarda o nome. quem dá o nome que faz sentido.

[com referência ao estandarte “Eu preciso destas palavras” de Arthur Bispo do Rosário, às canções “Ain’t got / I got life” do musical Hair e do repertório de Nina Simone e ao poema “Para uma eventual conversa sobre poesia com o fiscal de rendas” de Ricardo Aleixo]


sábado, 12 de setembro de 2015

o riscado

os céus não são os mesmos para todas as pessoas. nem as terras. nem os mares. é o que indica a estreiteza das janelas e das grades. a altura dos muros. o comprimento das cercas. o preço das viagens.
o rastro das coisas boas é feito de fios fortes que nem as tarrafas de pesca. as sandálias de vaqueiros. as rendas e as redes de algodão. os traços nas peles de yaôs. as escarificações. os desenhos de urucum e jenipapo.
marcado é o rosto de quem anda com antigas armas para o confronto nas cercas e nas grades. deixam um rastro no céu. outro no mar. outro no chão. marcado é o rosto de quem anda amante. por terrenos vincados por quem veio antes. pela destreza e pelas falas cortantes.
figura e letra com ou sem rima. canção sem bordão. cafuné e deleite em meio às rixas. pontas de estrelas riscadas. no céu. no mar. no chão.

outra coisa

céu é algo distante
nublado
estrelado
fácil de desenhar
riscado por aves e aeronaves
repleto de santidades
pintado em igrejas
é o oposto do inferno
cantado na prosa e no verso
céu é uma palavra curta e próxima
tem um encontro vocálico
requer explicações científicas
orum é outra coisa

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

o risco

a lâmina no círculo próximo
à maneira de uma tangente
pungente

o risco em volta de si
feito por quem batalha

no ringue
na lida
na rua
na pista

o corte feito por quem atrapalha

o corpo abatido na fronteira frágil

a lâmina da reação

certa substância
certo líquido
certa calma

quinta-feira, 23 de julho de 2015

céus clandestinos

há céus clandestinos sobre a gente rebelada.
entre dez pessoas ausentes, há sete que são nossas. estão marcadas pela juventude e pelo vermelho escuro. vez por outra, uma delas é assinalada com o vermelho escuro e o rosa.
estão onde os indícios da lei trazem uma promessa inacabada. estavam e estão onde passa uma sirene insidiosa.
vivem nos lugares em que certa geografia diz que são opacos e resistentes.

há céus clandestinos sobre a gente rebelada.
há muita música e pouco devaneio nas ruas, becos e vielas traçadas mais por mãos que máquinas.
faltam várias pessoas na pista de funk ou reggae, nos salões de pagode ou tecnobrega. vez por outra a dor aparece em letras de rap ou samba.
trilha de quem está só e segue. traça o rumo. o aprumo. bebe o sumo. o líquido da vitalidade.

há céus clandestinos sobre a gente rebelada. sobre os porões dos navios, as construções precárias, os locais de suplício, sejam cubículos ou praças.
há quatro décadas o movimento existe. lista os nomes. grava histórias. marcha.
as peles e as páginas apontam mais tempo. tempo é o que falta pra quem tem entre quinze e trinta anos.
não existe fineza quando se olha as fichas de quem morre e quem mata. um mapa mostra o vazio da gente marcada. há uma reportagem sem seqüência. um relatório arquivado. 

há céus clandestinos sobre a gente rebelada. 

o cortejo de quem está por sua própria conta é regado a silêncio, canto e fala. 

domingo, 12 de julho de 2015

[...]

o mínimo espaço 
e menos que eu

luz, calor
e nada d'eu

o sussurro, o cochicho
e eu sem fala

no escanteio a voz 
que eu tive e quis

folha seca e perdida
antes da depuração
na água lacrimal


quinta-feira, 9 de julho de 2015

sound system

eu ouço
eu busco
paredão sonoro
radiola
sound system
eu fujo
eu insisto
radiola
paredão sonoro
sound system
eu danço
eu existo
paredão sonoro
radiola
sound system

#somostodxsquemmesmo?

#somostodxsquemmesmo?

Somos todxs quem mesmo? Somos todxs Cleydison?

Cleydison Pereira da Silva é o nome do jovem negro, suposto assaltante, despido, amarrado e linchado até a morte no bairro de São Cristóvão em São Luís do Maranhão, cuja imagem do suplício tem sido excessivamente repetida.

No ensaio "Meu negro interno" de Beatriz Nascimento, escrito em 1974, a autora traz um personagem que nasce de uma conversa com um terapeuta. Seu "negro interno" é um corpo negro pensante que circula pelas ruas do Rio e se exaspera em situações de racismo. Ela arremata o texto, ao mesmo tempo analítico e literário, expondo a solidão do personagem: "Conhecê-lo é estar só, como era no canavial, como no tronco, como agora".

Podemos nos aproximar de cada pessoa negra aviltada, na verdade, destruída, pelo racismo e por outras opressões. A solidão da situação pode e deve ser contraposta por afeto e solidariedade. Mas há um instante em que a dor é somente da vítima. No feminicídio, na execução racial e também homo-lesbo-transfóbica, há um abandono inatingível. Como superar a distância com aquela pessoa antes dela ser despersonalizada?

A desumanização atinge o corpo e os lugares tratados como inferiores. Seu extremo, sabemos qual é. Mais uma vez, reverbero a voz de Beatriz: "Conhecê-lo é estar só, como era no canavial, como no tronco, como agora".

segunda-feira, 6 de julho de 2015

fruto

aos 20, aos 50, aos 80, parece que amadurecer é forjar e experimentar o próprio fruto e sua alternância de sabor, ainda mais entre frutos da mesma árvore, aquela da qual você depende e se desprende. pode ser doce. é amargo. pode ser bom. há algo inscrito entre a terra, a raiz e o fruto que cada estação vivida revela.

domingo, 5 de julho de 2015

aqui embaixo

aqui embaixo
o sopro procura um ouvido similar
a mão divide o prato

aqui embaixo
sobra um eco
de estranhos cortes e estampidos

aqui embaixo
uma luz quente traz gente em volta

aqui embaixo
resta uma memória
de que voltaremos para o alto

sábado, 20 de junho de 2015

palmas para a baixaria heteronormativa

o assunto parece ser a discriminação religiosa e também sexual provocada por quem se identifica ou é identificado com determinados segmentos evangélicos. o que poderia ser um papo sério resvala para a baixaria heteronormativa. explico.
o pastor diz que o jornalista fala "asneira" ao acusá-lo de incitar a intolerância. o jornalista responde com uma grosseria típica da agressão entre homens heterossexuais, insinuando que o outro gosta mesmo é do sexo com outros homens.
milhares de postagens repetem a baixaria falocêntrica e heteronormativa. milhões de acessos à gravação são acompanhados de "curtidas". o que fica de um assunto sério: que os homens brancos, com poder de fala (e do falo?) fazem o que querem, e inclusive contribuem para baixar mais ainda o nível das falas públicas.
usar o vocabulário machista não vai salvar nenhuma yaô ou yalorixá, nenhuma travesti ou lésbica ou gay, nenhuma pessoa de identidade feminina ou negra de um ataque a seu corpo. os homens continuam preservando sua brancura e sua macheza. algumas e alguns dentre nós aplaudem.
na memória da infância no armário esses palavrões reverberam. eram usados para maltratar. são ainda. estamos no mesmo lugar: do escárnio, ante-sala da eliminações sumárias. estamos equivocadamente sós.

terça-feira, 2 de junho de 2015

folhas soltas

duas idades e algumas coisas feitas à mão
camiseta de quem, roupa de alguém
conversa de relógios lentos. rumores

a maturidade no olho da árvore
livro de quem, escrito de alguém. folhas soltas

linha de quem. desenho de alguém. miudeza das horas

domingo, 24 de maio de 2015

pequenos amores

pequenos amores declarados em superfícies à vista
vincados na pele-metal
na pedra-papel
na parede-vidro
disse
me disse
quase falo
me calo
escrevo
me inscrevo
rasuro
pequenos amores aos corpos das margens
pouco nomeados
fichados
proscritos
dito
bem dito
mal dito
rascunho
pequenos amores esboçados
na borda das folhas
das pálpebras
das roupas
quase sem registro

(para os olhos negros que vi pela terceira vez)

sábado, 25 de abril de 2015

a diferença faz diferença: as étnico-raciais na pós-graduação da UFG

"um passo à frente e você não está mais no mesmo lugar" - Chico Science


demos alguns passos. demos vários. daremos outros. o olhar sankofeado está atento.

1.  a aprovação das cotas étnico-raciais na pós-graduação da UFG foi um esforço coletivo de muitos anos (Projeto Passagem do Meio, Coletivo de Estudantes Negras e Negros Beatriz Nascimento, NEAAD, Programa Conexões de Saberes, V Congresso Brasileiro de Pesquisadores/as Negros/as, etc.) e, sobretudo,  uma conjunção contemporânea de vários núcleos e coletivos de pesquisa e ativismo de distintas áreas do conhecimento.

2. um filme passa nesta hora em que lembro a reprovação ou evasão na USP (e noutras universidades) de várixs colegas negrxs e indígenas pelo racismo institucional explicitado em muitas barreiras e personalizado em figuras elitistas. lembro as perguntas insidiosas sobre nossos temas de pesquisa e publicações e sobre nossos corpos. me preocupo, portanto, com a preparação de candidatxs. a ciência é hegemonicamente branca. o que queremos: reconhecimento de outros saberes? outras epistemologias?

3. são cotas para  negrxs e indígenas. a expressão "pretos, pardos e indígenas" diz respeito á classificação do IBGE. nossas identificações se relacionam com o Estado, sim, mas as transcendem. São políticas, são múltiplas, são dinâmicas.

que as paginas negras e indígenas de mais dissertações e teses, artigos e livros, saltem aos nossos olhos. que a diferença faça diferença. aquele abraço a quem veio antes e quem veio junto. 

quinta-feira, 16 de abril de 2015

imagens da violência contra os corpos discriminados

o que fazer diante da imagem do corpo negro e travesti torturado e aviltado? de um corpo feminino ou indígena morto e com sinais de violência?  divulgá-la no intuito de confrontar ou sensibilizar?

muito me incomoda a divulgação das fotos da travesti Verônica Bolina com o rosto desfigurado e o torso à mostra após um episódio de confronto e de tortura. o que os agentes da sociedade racista, sexista e heteronormativa querem é escanear, ou seja, esquadrinhar os corpos que julgam desviantes, imorais ou demoníacos e expô-los indevidamente. o "pagamento" na mesma moeda é uma troca que se faz com seus próprios limites.

os corpos vistos em cenas de violência em desenhos e pinturas coloniais são, sobretudo, negros e indígenas. essa imagem há muito está na mente de quem vive nas Américas. a toda hora, veículos jornalísticos de teor duvidoso mostram o grotesco da violência contra corpos femininos, travestis, transexuais, lésbicos, gays. negros, indígenas, infantis. resta a busca pelas finas e qualificadas palavras e imagens para tratar do horror. 

quarta-feira, 8 de abril de 2015

des/água

des/águam mágoas
entre dedos, sob olhos

águas de des/mandos
vala onde escorre
ciúme, rancor

eu rimo quase fácil
e chego àquela espécie de dor

de qual delas?
de qual lado dessa dor?

des/mancham terras
entre rios, sob céus

vala que esconde
mal querer, mau humor

não rimo, não é fácil
o res/sentimento é estéril

água, me des/pedaço
pedra, me des/faço

reitero a quase aliteração, reitero
entre cortes, sem cura

líquida e turva
sólida e quebrada

água de mágoa
des/água

sábado, 24 de janeiro de 2015

a pessoa que lhe conhece há mais tempo

"agora você não precisa usar mais pulseiras", disse a mãe ao telefone após ter visto as fotos das tatuagens no pulso do filho cinquentão, preocupada com um suposto excesso de "enfeites". riram juntos.

ela sabe que ele usará pulseiras e tatuagens. quem sabe, fará mais tatuagens. ela até previu uma parte do corpo dele para isso.

ele e a pessoa que lhe conhece há mais tempo se desconhecem e se reconhecem. são finezas do tempo, do espaço, do corpo.  o riso é a boa lâmina.