terça-feira, 8 de novembro de 2016

quanto ao tempo

quanto ao futuro
a boca falava em troco e no oco

quanto a apenas um dia
a boca dizia e desdizia o que preza, o que reza

quanto ao horizonte, havia quase ontem por dentro
o olho quis saber o que escrevia e via


viu o resto da noite e a réstia do dia

sábado, 6 de agosto de 2016

A luz de Luiza [Bairros]

No dia 12 de julho de 2016, dia do nascimento de Beatriz Nascimento, eu estava no Ilê Axé para começar meu processo de iniciação no candomblé. Algumas horas antes de ser recolhido, recebi a notícia do falecimento de Luiza. Primeiramente não acreditei. Estava me desligando do celular e não tinha quase ninguém com quem compartilhar o agudo dessa hora. Lembro-me de Osmundo Pinho dizer que naquele fato estava o pleno significado de “perda irreparável”.
Não éramos amigxs de ombro a ombro. Estivemos juntxs poucas vezes, mas foram seguras e delicadas. Quando ela estava no PNUD, um dia, pediu meus contatos. Vi que a pessoa-referência estava atenta ao que eu fazia/estudava/escrevia. A sensação foi a de que um dos faróis que me iluminava, jogava sua luz sobre mim. Tinha sido assim com Kabengele Munanga e com Sueli Carneiro.
Em 2004, por indicação dela, estava numa mesa redonda o seminário em rememoração aos 10 anos de morte de Lélia Gonzalez.  Depois foi o livro sobre Beatriz Nascimento e mais à frente a biografia de Lélia, com Flávia Rios, para a qual ela não quis, compreensivelmente, dar entrevista. Além do artigo “Lembrando Lélia Gonzalez” no qual ela evoca esta persona incontornável, imagino que suas trajetórias eram bastante superpostas, ainda que diferenciadas, e falar exigiria esforços adicionais.
Algumas conversas frente a frente me marcaram nesse percurso de busca e interlocução com a obra de intelectuais/artistas/ativistas negrxs, nossxs semelhantes. Alguma ideia, a palavra, conterá o que retive de sua perspectiva.
Há muito que se lembrar dela, desde a construção do Movimento Negro até a gestão pública. A memória, minha e de muitxs, é do discurso laminar e denso. Que apareçam mais textos seus e mais registros de sua passagem luminosa sobre o planeta. Que ela e nós tenhamos longevidade e bem viver em vários planos.
Axé e saudade.

terça-feira, 7 de junho de 2016

feira e laboratório

meus dentes
meu torso
meus braços
minhas pernas
meu preço
o olho do Mercador

meu adobe
meu ferro
meu ouro
meu bronze
minha terra
o olho do Colonizador

minha cabeça
meu cérebro
meus ossos
meu corpo
meus movimentos
o olho do Cientista

meus dentes
meus lábios
minhas nádegas
meu sexo
minha recusa
o olho do Senhor

[para Sara Baartman, conhecida como a "Vênus Negra"]




quinta-feira, 12 de maio de 2016

lini/ker

lini/quer
lini/quis

lini/querem
lini/quero

lini/quem
lini/queer

lini/querer
lini/ker

mal me lini/ker
quem?
bem me lini/ker
eu

e tudo o que é seu
lini/ker

[após a primeira passagem do furacão ‪#‎Liniker em Goiânia]

quarta-feira, 11 de maio de 2016

escalas e escolas da reação

 o dia: o dia em que provavelmente se consolidará o golpe branco - leia-se masculino e de elite - na esfera política, contra um governo repleto de erros, mas não exatamente por eles (os erros graves de negar problemas das camadas de baixo e de se aliar ou imitar as camadas de cima dizendo que a proposta era outra). um golpe que se estenderá em várias escalas, do corpo à cidade, aos estados e ao país.

os próximos dias: os vislumbres de visibilidade e possíveis avanços das mobilizações da gente subalternizada podem dar lugar a ameaças de várias ordens. entre a desobediência civil, as fugas (políticas) e os enfrentamentos, uma certeza: temos 3 gerações e vários platôs articulados para elaborar a reação em várias escalas.

o tempo: o tempo em que nossa gente subalternizada imaginou dar passos a frente e alguns foram dados (e isso vem antes e está além de qualquer governo). são 3 gerações de estereótipos e ataques letais. (são mais). são 3 gerações formadas em escolas - formais ou não, quadriculadas ou não - do corpo às aldeias, aos quilombos, aos terreiros, às pistas e ruas e margens das cidades e do país.

os próximos tempos: uma escola que não se resume a docentes, discentes, livros, cadeiras e salas. (na escala local há muitas escolas criativas sem livros, mas não sem poemas). a escala da escola do saber-fazer/poder insurgente que nos manteve – ainda que “apenas” mental, espiritual ou artisticamente – em nossos territórios. 

domingo, 17 de abril de 2016

o dia seguinte

falas
para telas
para cliques


a praça incompleta
a teoria fora do tempo


falas
dedos em riste
para claques
para cliques


falas
editadas
pautadas


ruídos
esboços
de atos espúrios
sem agravos


de um lado da praça
no asfalto
em frente ao edifício
o prazo de validade
dos recados
dos gritos


plenário incompleto
vozes selecionadas


o fato
o muro


perto ou longe da praça
na escola ocupada
fora do tempo previsto


longe do plenário
o massacre
a verdade sem voz
e incompleta


falas
do corpo encapsulado
dos pequenos grupos


falas
contas de erros
contas de quem falta


quem escapou
quem viu
quem leu
conversou
se reuniu


pilhas de
cadernos
livros
documentários


no tempo em que
cartazes
panfletos
pichações
letras de canções
eram armas

debaixo das árvores
no terreiro
na cidade incompleta
no gueto


histórias
metáforas


para o corpo
marcado
incompleto
para o dia seguinte


a procura das falas
fora das salas
en-quadradas


a edição
de um filme
de um livro
de uma história em quadros


com a voz de quem
não esquece
da queda
da apartação
do massacre


e no título
o dia seguinte


domingo, 20 de março de 2016

golpe: de quem? contra quem? de que lado?

em tempo de internet há um confronto muito rápido de informações, imagens, falas, montagens. por mais que tenhamos vivido e/ou lido, somos muito parciais em face dos limites da experiência e das leituras de uma ciência bastante segmentada em caixas de saber.

a chamada esquerda, ancorada em autores euro-andro-heterocentrados raramente racializou suas teses e tratou como minoritária as questões de gênero e sexualidade. por essas e outras muitxs de nós rompemos com suas organizações. há lados da questão que envolvem dimensões de classe, raça, gênero, sxeualidade e posição política que poucxs se arriscam a colocar em pauta.

no entanto, até mesmo institutos de pesquisa cujos dados sobre as manifestações de rua desconfiamos, indicam que os atos dxs supostxs defensores da corrupção e de apoiadorxs do impedimento da presidenta são, em sua grande maioria, brancxs e de elite. sabemos de uma geografia do protestos, dos canhestros panelaços. o que quer dizer isso? quais suas implicações.

haja escuta – legítima – e haja leitura todos os dias para entender os vários lados dos golpes e de golpistas. há uma intenção de um conluio entre juízes/advogados, parlamentares e empresários do jornalismo para derrubar a presidenta. este é um lado, uma face, um dos prováveis golpes. o outro é que a os grupos verdeamarelistas sem maiores lideranças podem crescem com apoio de parte desse conluio e sabemos da tribuna do ódio que elxs abriram: contra negrxs, pobres, feministas, religiões de matriz africana.  pode haver um golpe maior contra o frágil estado de direito que conquistamos.

há quem diga de vez em quando que “temos que ir às ruas”. as ruas da internet são virtuais. são infovias.  as falas sensatas estão nas ruas e nas infovias. por mais que se polarizem, não há apenas dois lados, duas posições. nas manifestações em que o vermelho predominou não estavam somente aos grupos que se auto-afirmam de esquerda. estavam pessoas e grupos indígenas, negros e feministas que próprios governos esquerdistas atendem apenas algumas demandas e traem as outras ao se aliar a antigos donos do poder. a infovias e as ruas estão repletas dessas contradições.

há quem não foi a nenhuma manifestação nem à outra porque sabe, como sabemos, que não é a efetiva alteração emancipadora da ordem política que está em jogo. sabemos – gente negra, indígenas, mulheres, feministas, lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros, pessoas que não se encaixam nas identidades de gênero e sexualidade, migrantes pobres – que no estado de direito que aí está, apenas rascunhado, não temos garantia de existência. as agressões às mobilizações de estudantes e docentes, a não demarcação de terras indígenas e quilombolas, a morte de mulheres, jovens negrxs e pessoas lgbt, com suporte do braço armado de governos “esquerdistas”, está aí para que não esqueçamos.


haja escuta e leitura. haja manifestação nas ruas e nas infovias. de que lado/s estamos? de onde vem o golpe? contra quem?

sábado, 5 de março de 2016

tangível

olhos que alcançam outros olhos
e esquadrinham bocas
que não falam de si mesmas

mãos que tocam ombros
e outras mãos
restando tudo tangível

domingo, 14 de fevereiro de 2016

re-feiçao

comi o pão de amanhã
bebi
não sei o quê
e o que fica
é o depois do dia, do pão
a sede retorna
certa fome
haja água
fruta qual
a erva do hábito

os temperos
trazidos em barcos, camionetes, braços, mãos
as folhas
os chás
os banhos
os ritos
quais

da mesa, esqueço a forma
na esteira, o prato é lembrança
haja receitas
em cadernos
em cabeças
quais

espero o grão de amanhã
a vitalidade liquefeita
a re-feição
ingerida
incorporada
qual
soube de quem comeu
de quem se foi
[inanição]
soube de quem ofereceu
quem

grão e pão
folha e palha
festa e quase silêncio
roupa e quase nudez
quando
o amanhã da feira, do mercado, da cidade
das comidas quais
das bebidas quais
ainda que falte

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

in/tento

jamais joguei futebol a contento pra saber o que é "bater na trave". sei o gosto meu e imagino o teu: ao tentar e quase conseguir. ao chegar lá. sei do revés e do viés. dos obstáculos.
do poeta emparedado, ingeri um poema. por ele, esmurrei o muro e carrego a cicatriz, ainda que não precise de prova. diante do poema censurado, rascunhei o número de perdas e o nome fardado e corporificado. a parede é o outdoor sem a inscrição da poeta.
falo em primeira pessoa e o que sou diante de quem veio debaixo, veio antes e nem chegou a esse esboço de estrada? herdeiro da indagação, sei que tenho direito à uma bagagem leve diante de um peso nas costas como legado. primeira pessoa, que nada!
na pequena refeição - uma das poucas feitas à mão com as coisas do quintal de casa - vejo o rastro do riso pela fotografia. cena pretérita que encenarei na imitação da volta. exilado e retornado trasfiguro mapas e outras coisas manufaturadas.
das obras reproduzidas, trago em mãos alguns livros do escritor banido para além das fronteiras brancas e másculas. insisto na metáfora e escuto mapas cantados. rumor de marés e autoctonias em movimento. chamadas de nômades e errantes, antes de usurparem a terra.
a proibição da língua primeira é seguida da dormência dos lábios. soçobra a voz em off, backing vocal das canções de trabalho. no terreno mais próximo se faz um jogo simples, se contam fichas de jukebox e na irmandade da cicatriz toma-se uma bebida fermentada ou destilada em artesania.
o indício é o que resta: na areia, na parede, no outdoor, no livro, na tela da máquina.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

o exílio


há quem entra e sai a toda hora
quem some
sai aos poucos
foge
finge estar bem
há quem volta e fica bem
quem não cabe mais
cala e discorda
o problema retorna
há o banimento
o muro que irrompe a cada tentativa
a margem que não pode tocar o fluxo
há algumas horas boas
poucos dias bons
um peso nos ombros
um nó que aperta em ciclos
há quem tente
quem desista
uma batalha que dura uma vida
há perguntas sem eco
a depreciação diante do reflexo
há mitos frágeis
canções de perda e separação
textos inscritos na derme
indícios do que houve
suspeitas
nome alçado ao silêncio
lançado longe
até deixar de ser nome
o que há
quem não está mais
e incomodou enquanto estava
o exílio
rumores e trabalhos forçados
cadernos de retorno
insur-gente riscada do mapa