sábado, 6 de agosto de 2016

A luz de Luiza [Bairros]

No dia 12 de julho de 2016, dia do nascimento de Beatriz Nascimento, eu estava no Ilê Axé para começar meu processo de iniciação no candomblé. Algumas horas antes de ser recolhido, recebi a notícia do falecimento de Luiza. Primeiramente não acreditei. Estava me desligando do celular e não tinha quase ninguém com quem compartilhar o agudo dessa hora. Lembro-me de Osmundo Pinho dizer que naquele fato estava o pleno significado de “perda irreparável”.
Não éramos amigxs de ombro a ombro. Estivemos juntxs poucas vezes, mas foram seguras e delicadas. Quando ela estava no PNUD, um dia, pediu meus contatos. Vi que a pessoa-referência estava atenta ao que eu fazia/estudava/escrevia. A sensação foi a de que um dos faróis que me iluminava, jogava sua luz sobre mim. Tinha sido assim com Kabengele Munanga e com Sueli Carneiro.
Em 2004, por indicação dela, estava numa mesa redonda o seminário em rememoração aos 10 anos de morte de Lélia Gonzalez.  Depois foi o livro sobre Beatriz Nascimento e mais à frente a biografia de Lélia, com Flávia Rios, para a qual ela não quis, compreensivelmente, dar entrevista. Além do artigo “Lembrando Lélia Gonzalez” no qual ela evoca esta persona incontornável, imagino que suas trajetórias eram bastante superpostas, ainda que diferenciadas, e falar exigiria esforços adicionais.
Algumas conversas frente a frente me marcaram nesse percurso de busca e interlocução com a obra de intelectuais/artistas/ativistas negrxs, nossxs semelhantes. Alguma ideia, a palavra, conterá o que retive de sua perspectiva.
Há muito que se lembrar dela, desde a construção do Movimento Negro até a gestão pública. A memória, minha e de muitxs, é do discurso laminar e denso. Que apareçam mais textos seus e mais registros de sua passagem luminosa sobre o planeta. Que ela e nós tenhamos longevidade e bem viver em vários planos.
Axé e saudade.